O filme que transcendeu os limites do seu gênero deixou de alcançar apenas os jovens, como também aqueles que buscam compreender o teor político por trás dos livros de Suzanne Collins

A 3ª parte da franquia Jogos Vorazes fez jus a seus antecessores. A Esperança Parte 1 surpreende grande parte do público que foi ao cinema, até mesmo aqueles que leram aos livros escritos por Suzanne Collins. Uns por não esperarem uma mudança tão drástica na apresentação da protagonista, outros pela oportunidade de presenciar um ambiente muito mais envolvente do que o encontrado nas páginas do último volume da série.

O diretor Francis Lawrence teve a difícil tarefa de manter o padrão mostrado no filme anterior, Em Chamas, baseado no roteiro de Peter Craig e Danny Strong. Porem, neste caso, a maior dificuldade encontrada está no fato de que A Esperança poderia (deveria) ter sido apresentada em apenas um filme, mesmo que para isso fossem precisos 180 minutos. Um dos pontos que enfraquecem a trama é a repetição excessiva da fraqueza (psicológica, física e emocional) de Katniss (Jennifer Lawrence) para se tornar o símbolo da revolução contra o autoritarismo da Capital, governada por Snow (Kiefer Sutherland).

Com o fim dos jogos por conta do plano dos comandados da presidente do “extinto” Distrito 13, Alma Coin (Julianne Moore), o filme muda a temática e passa a mostrar, evidentemente, a luta de Katniss em reencontrar forças; principalmente após saber que seu parceiro de jogos e “namorado” Peeta Mellark (Josh Hutcherson) foi sequestrado pela Capital. Os rebeldes (radicais, como diria Snow), precisam de um líder e Platarch Heavensbee (Philip Seymor Hoffman) junto com Coin, tentam fazer dela o símbolo da rebelião, o tordo em chamas.

Katniss só aceita se tornar a líder depois que visita pessoalmente seu antigo Distrito, o 12, que fora destruído por um bombardeio. Durante a cena em que ela está sozinha no meio das ruinas do seu antigo lar, fica nítido o clima sombrio de tristeza da obra assim que a protagonista pisa em um crânio. Ver tudo aquilo faz com que a raiva volte e ela relembre quem é o verdadeiro inimigo.

O jogo político da propaganda em vídeo onde Katniss é usada como estímulo da rebelião e Peeta contrapondo como o pacificador, é a tática sublimar remetida à publicidade eleitoral, no qual são dadas frases de efeito, expressões de indignação e emoção a cada um dos grupos. Exemplo disso está vinculado à cena em que os rebeldes explodem os soldados de cima das árvores.

Dentre as alterações da primeira parte de Esperança comparadas ao livro, a inserção de Effie Trinket (Elizabeth Banks) no meio dos rebeldes, mesmo contra sua vontade, deu ainda mais ênfase ao sentimento de confusão vivido pela protagonista. A profundidade dos sentimentos representados por Lawrence mostrou uma Katniss ainda mais forte do que o personagem da obra escrita.

Em resumo, A Esperança Parte 1 entrou para a lista dos poucos filmes que conseguiram superar a obra original impressa.  A divisão do filme fez bem a saga, não apenas para os lucros dos produtores, mas para que o espectador pudesse conhecer outro lado de Katniss. Agora ela está frágil, amarga e mais irada já estivera. Além disso, mais uma vez sua personalidade é usada como fator de questionamento devido sua teimosia, instinto materno e desinteresse (que muitas vezes soa como egoísmo). Ela nunca desejou aquela situação, mas agora precisa lutar.

Não há mais o espetáculo, o glamour das roupas e os cenários dos dois primeiros filmes. O Distrito 13 é um lugar de provação para todos os habitantes, eles trabalham nos limites de um bunker, portanto, tudo é contado. Cinza é a cor predominante, e faz com que os diversos momentos parados e de apreensão tornem-se ainda mais longos. Trata-se do prelúdio da guerra e da transformação de Katniss em um símbolo de revolta popular contra a Capital de Snow.

O teor político do penúltimo capítulo remete a revoluções socialistas. Contudo, a ação ficará para a segunda e derradeira parte. Até porque, a saga Jogos Vorazes não é uma saga de história infantil, na verdade, refere-se a uma crítica tenaz à sociedade, aos seus meios psicológicos, políticos e sociais de manipulação das massas.

Essa série não se parece em nada com as últimas sagas infantojuvenil que foram lançadas. Desta vez, há um tema mais profundo por trás da história. Jogos Vorazes quebra diversos estereótipos femininos, como o de que devido a sua paixão por um rapaz a garota atrai perigo para si e para as pessoas a seu redor; o foco principal está vinculado à indústria do espetáculo, de um poder opressor e da luta pela liberdade e democracia. À vista disso, vale a pena esperar mais um ano para conferir o desfecho.

The Hunger Games: Mockingjay Part 1, EUA, 2014
Jogos Vorazes: A Esperança Parte 1
Gênero: Ficção Científica
Duração: 125 min.
Elenco: Jennifer Lawrence, Donald Sutherland, Josh Hutcherson, Julianne Moore, Liam Hemsworth, Philip Seymour, Hoffman, Lily Rabe, Natalie Dormer, Jeffrey Wright
Trilha Sonora Original: James Newton Howard
Roteiro: Danny Strong, Suzanne Collins
Direção: Francis Lawrence
Avaliação: ****

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